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Entre batidas

Luis Fernando Verissimo

Louise de Lorraine era a mulher do rei Henri III, da França, e o casal não conseguia ter filhos. Tentavam de tudo. Faziam penitência juntos. Peregrinações a catedral de Chartres, de onde traziam camisolas benzidas para usar na alcova real. Promessas a santos e doações a obras caridosas da igreja, numa espécie de propina oferecida a Deus para lhes dar fertilidade. Nada adiantava. Apelavam para a ciência da época: infusões, emplastros, filtros, testículos de touro macerados para o rei, chá de placenta para a rainha, a imersão dos dois em tonéis de gemada. Nada. A rainha não engravidava.

Um dia, Louise queixava-se a suas damas de companhia da sua triste condição e das suas repercussões na sucessão do rei e no futuro da dinastia, quando ouviu de uma delas uma sugestão inédita. Por que a rainha não esquecia a religião e a ciência e tentava o adultério?

Não se sabe o nome e o destino desta dama de companhia, mas deveriam ter ficado registrados na História. Ela foi a primeira a questionar as convenções e os ritos estabelecidos quando se trata de questões de Estado, a primeira pragmática. Nascia a realpolitik.

(Como Louise de Lorraine morreu sem ter filhos, deduz-se que não aceitou o conselho prático da sua aia. Ou aceitou, mas não deus certo).

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Um armênio chamado Hagop Sandaldjian emigrou para os Estados Unidos e levou consigo a arte de fazer arte em miniatura, que aparentemente era uma tradição na sua terra. Mas Hagop não fazia pinturas em cabeças de agulha – fazia esculturas em cabeças de agulha.

Usando coisas como grãos de areia e fiapos de tecido, com instrumentos que ele mesmo inventara - alfinetes com rubi abrasivo ou pó de diamante na ponta - esculpia as figuras de Chapeuzinho Vermelho, Napoleão, Pato Donald, o Papa João Paulo II todo paramentado e abanando para os fiéis, Branca de Neve com todos os sete anões, ou mini-anões, que depois pintava com pincéis feitos de um único fio de cabelo. Esta informação está num livro fascinante chamado Ms. Wilson’s Cabinet of Wonder, sobre um museu de excentricidades que existe em Los Angeles, escrito por Lawrence Weschler. O autor interessou-se pelo armênio, cujos trabalhos estão expostos no museu, e procuro saber mais a seu respeito. Descobriu com um filho dele, chamado Levon, que Hagop era provavelmente o único microescultor do mundo, e que costumava trabalhar tarde da noite, quando os filhos dormiam, a casa silenciava e o trânsito nas auto-estradas de Los Angeles diminuía. Então debruçava-se sobre seu microscópio e fazia suas esculturas, segundo Levon, entre as batidas do seu coração. Como o menor tremor da sua mão impossibilitaria o trabalho, Hagop não podia arriscar nem a microvibração do sangue pulsando em suas veias. Sincronizava os movimentos dos seus alfinetes e pincéis de um só fio com os movimentos do coração e fazia a sua arte nos rápidos intervalos de quietude absoluta. A história do filho provavelmente não é verdadeira mas há uma metáfora aí, em algum lugar, nesse espaço picotado da criação particular, essa idéia de uma quietude perfeita que carregamos conosco sem saber por que o pulsar da vida nos distrai. Ou a idéia de que sístole e diástole todo o mundo tem mais ou menos parecido, mas o microinstante no meio é de cada um.


Domingo, 7 de agosto de 2005.



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